Leia o poema da escritora mineira Adélia Prado para responder às questões 04 e 05.
O poeta ficou cansado
Pois não quero mais ser Teu arauto1.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares2,
já que Tua voz reboa3
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros-viajantes4
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor, nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.
(Oráculos de maio. Adélia Prado, 2021.)
1 arauto: aquele que proclama, que anuncia.
2 tear: artefato ou máquina destinada à fabricação de tecidos, malhas, tapetes etc.
3 reboar: ecoar fortemente.
4 caixeiro-viajante: representante de venda ou empregado de comércio, que viaja a serviço de uma firma ou por conta própria.
No poema, o eu lírico dirige-se a seu interlocutor, mediante um vocativo, no seguinte verso: